sexta-feira, 8 de março de 2013

Sua companheira não é um pedaço de carne


Eu não sou um pedaço de carne,
Eu não sou propriedade,
Você não me compra na banca,
Você não me compra em lugar nenhum.
(Escrito numa camiseta de uma garota que conheci em uma livraria)
 Dias atrás, em visita ao interior de Goiás, presenciei um homem humilhando deliberadamente sua mulher enquanto ambos faziam compras em um mercadinho. A violência das palavras dele e a subserviência dela frente ao inaceitável me tocaram fundo. Pensei, e me vi fazendo isso, em enfiar a cabeça do distinto senhor (não estou usando de ironia não, o agressor estava muito bem trajado) dentro da gôndola de tomates, mas percebi a não validade educativa de tal ação e me contentei em dizer: “Vocês têm filhos?”. “Sim, por quê?”. “Eles cresceram vendo o senhor insultar a mãe deles por esporte”. “Porque você não cuida da sua vida?”. Todas essas frases foram dele. Ela permaneceu calada. E eu fui cuidar da minha vida, com vergonha de minha incapacidade de mudar as coisas.
Em outra cidade em que parei para tomar cerveja com meu irmão, ouvi um morador dizer sobre um homem para quem acenara: “Aquele ali é o Seu Dito. Coitado, teve que matar a mulher! Ela não prestava”. Percebi que o Seu Dito era uma pessoa querida no local.
Mês passado escorria na primeira página do UOL a história de Mércia, a advogada que havia desaparecido e que teve seu corpo encontrado dentro de um carro no fundo de um lago, com um tiro no queixo. Na mesma primeira página, uma garota de 14 anos que foi recebida, ao sair de uma festa, com 5 tiros no peito disparados pelo ex-namorado de 17 anos que tinha ficado magoado com algumas palavras dela. Na mesmíssima primeira página, uma garota tinha sido morta pelo namorado: por ciúmes, o rapaz jogara gasolina sobre a menina e ateara fogo.
Numa reunião com proprietários rurais do interior deSão Paulo, ouvi um senhor dizer que paga R$350 para as mulheres que trabalham eu sua propriedade (segundo ele, R$ 100 a mais do que qualquer outro fazendeiro). Em troca, ele obtém favores sexuais. Essas mulheres se submetem sob a ameaça de perderem o emprego de fome. Coisa semelhante ao descrito por Garcia Márquez em Crônica de uma morte anunciada.
Tudo isso talvez explique as razões que me deixaram extremamente sensibilizado pelo desfecho da novela do desaparecimento da amante do goleiro do Flamengo. Eu realmente fiquei comovido com a história da modelo (ou atriz pornô) que foi assassinada pelo amante e servida aos cães no fundo do quintal. Essa narrativa de horror é talvez um exemplo mais concreto (por isso mais chocante: por ser mais palpável, mais difícil de negar) da forma como muitas mulheres são vistas e tratadas todos os dias em todos os lugares do mundo (o fato de a maioria dos assassinatos e dos cães acontecerem na esfera do simbólico não muda a condição de coisa sob a qual tem se construído a imagem da mulher).
Eu, assim como a maioria avassaladora dos homens, fui educado para ver a mulher como brinquedo. No caso do meu aprendizado (uma formação deesquerda), um brinquedo muito delicado e muito especial do qual a gente tem que cuidar com muito carinho, mas, mesmo assim, um brinquedo. E, como todo brinquedo, a sua principal finalidade é entreter o seu dono. A um brinquedo é negado qualquer direito sobre si mesmo e cabe exclusivamente ao proprietário as decisões sobre a melhor forma de uso, incluindo aí o descarte. Para tornar a situação ainda mais tenebrosa, as mulheres (ou a absurda maioria delas) são educadas para ser brinquedo.
A idéia da mulher como brinquedo é reapresentada a cada revista masculina que chega nas bancas (elas são penduradas como pedaços de carne para degustação), em cada comercial de cerveja ou automóvel e até mesmo nas revistas femininas sobre cuidados com o corpo, que ensinam: “como evitar ser um brinquedo descartável” e “o que fazer para não te lançarem no canil”.
O reforço diário da mulher como propriedade masculina é o reforço diário da violência contra a mulher: eu faço o que quero com minha propriedade e ninguém tem nada a ver com isso (como me disse nas entrelinhas o distinto senhor do mercadinho).
Confesso que estou angustiado com estas cenas de violência sendo apresentadas na imprensa como se fossem crimes comuns e sem interconexão. Os movimentos ambientalistas e em defesa dos animais têm cada vez mais visibilidade midiática. Cada vez mais pessoas se tornam vegetarianas e os desfiles de casaco de pele são invadidos por força do discurso contra a crueldade com os animais. No entanto, as carnes de elizas, monicas, doralices, divaneides, andréias, dinorás, mercias, valdelices, julianas são comercializadas, devoradas e jogadas fora todos dos dias e quase ninguém diz uma só palavra.
Escapar dessa armadilha exige um exercício diário de luta e auto-avaliação na busca de superar essa idéia de proprietário-e-propridade (tão arraigada que se repete até mesmo nas relações homossexuais masculinas e femininas). Só com esse exercício será possível o pleno encontro entre homens e mulheres e uma relação sincera de companheiros de vida, de parceiros na construção da história.
Cleyton Boson