(por Diego C., professor do Cursinho Lima Barreto)
Um fato me deixa com a pulga atrás da orelha, tenho 30 anos de idade e desde que sou pequeno vejo notícias sobre crimes cometidos por adolescentes e pessoas jovens. O Brasil se gaba de ter conseguido universalizar boa parte da educação básica, além de ter retirado uma parte considerável da população do estado de miséria e ainda assim, há pessoas muito jovens entrando no mundo do crime. Não resta dúvidas de que um sistema econômico desigual é um dos grandes responsáveis por este fato, basta olhar para as crianças de rua. Quantas daquelas crianças que cheiram cola e pitam crack nas calçadas nasceram em berço de ouro e estudaram nas melhores escolas? Ou quantos dos jovens na “Fundação Casa” cresceram nos lares mais ricos da cidade? E quantos são oriundos de bairros pobres? Mas a pulga continua incomodando, pois, o fator econômico, embora seja uma variável importante, por si só não explica a reprodução da violência entre as novas gerações, afinal, é comum que em uma mesma casa haja um irmão criminoso, enquanto um outro virou assalariado. A resposta mais fácil para esta questão é a tal da índole. Tal conceito é confuso e quando aparece, ninguém sabe determinar direito sua causa, um dirá que é genético, outro dirá que tem a ver com a alma, outro ainda que tem a ver com os traumas de infância, porém, todos irão concordar que se um irmão se torna criminoso, enquanto todo o resto da sua família é trabalhadora, é porquê, de certa forma, ele tem má índole. Não vem ao caso aqui discutir se má índole existe ou não, porém, mesmo não descartando sua existência, será que toda pessoa que vai para o caminho do crime age de tal forma porquê tem a tal da índole ruim? Ao meu ver, esta explicação tem muitos furos. Há muitos exemplos de jovens e adultos que tiveram uma oportunidade e conseguiram sair do mundo do crime, ora, se tais pessoas fossem más por natureza, será que teriam condições de melhorar? Além disso há criminosos cruéis que quando são pegos, sua família e amigos correm em sua defesa, demonstrando que embora o sujeito tenha sido um fascínora contra suas vítimas, em outros círculos ele sempre foi uma pessoa boa e amável. Se um sujeito destes tivesse má índole, seria mau todo o tempo e em todo lugar, ao invés de ser um cidadão exemplar boa parte do tempo e cometer seus crimes apenas contra vítimas selecionadas. Descartada a explicação da índole como o fator chave para o surgimento de novos criminosos, não me resta outra alternativa que não a de examinar o próprio lugar onde cresci no Bairro dos Pimentas. Desde o início dos anos 90, quando fui morar na região, tinha um pessoalzinho envolvido com roubos de carros. Enquanto os pais das crianças da vizinhança saiam cedo e voltavam tarde de seus longínquos empregos, os bandidos ficavam nas ruas desfilando suas roupas de marca, suas motos e automóveis envenenados com sons potentes. Alguns deles eram tios, primos e irmãos de tantas das crianças do pedaço e não era incomum vê-los pagando uma tubaína para seus priminhos, ou ainda levarem as crianças para passearem na garupa, no banco do passageiro, etc. Eles podiam ser bandidos para suas vítimas, mas para boa parte das crianças da vizinhança eram verdadeiros heróis. Uma criança carente da atenção dos pais ausentes por causa do trabalho, começa a mendigar a atenção de seu herói mais próximo, começa a se meter nas rodas de conversa dos mais velhos, fingir que está entendendo tudo, a olhar fascinado a exibição de potentes motores e aparelhos de som e passa a se sentir orgulhoso quando pedem sua ajuda para pisar num acelerador, levantar a tampa de um motor, etc. Uma bela noite, seus primos vão desmanchar um carro e lhe darão vinte reais por sua ajuda, outro dia deixam-no manipular e atirar com uma arma de fogo, etc. Outro dia lhe protegem de um menino mais velho que queria lhe bater. Aquela criança cresce dentro de uma paisagem cultural onde a bandidagem, longe de ser vista como um mal do qual deva se afastar, é tida como algo natural. Se não tiver a orientação de um adulto mais pé no chão, quando crescer um pouco e quiser ir para uma festa, comprar drogas, ou até mesmo impressionar as meninas com uma roupa de marca, ou, dependendo da idade, com um veículo, começa a fazer pequenos trabalhinhos sujos. Assim, aliado ao fator econômico, temos um fator cultural que contribui para a reprodução da violência e da criminalidade. Por um lado, por motivos econômicos um grupo não consegue oferecer tantas oportunidades para suas crianças e por outro lado, os membros criminosos daquele grupo e que tem mais disponibilidade de interagir com as crianças, podem acostumá-las com a ideia de que o bandido é um cara legal e corajoso, e dependendo da trajetória de cada criança, das oportunidades que teve na escola, da atenção que recebeu da família, da relação que estabeleceu com pessoas honestas e criminosas, com os costumes dos colegas com quem anda, ela terá maiores ou menores chances de entrar no mundo do crime. Se esta tese estiver correta, significa que nossa sociedade, sem se dar conta, está ensinando algumas de suas crianças a serem bandidos. Porém, ainda há um aspecto desta explicação que me incomoda muito, se a grande maioria das pessoas são honestas e há tantos exemplos positivos para as crianças seguirem, inclusive de pessoas interessadas na educação dos menores, como é que o bandido consegue ter tanta influência? O que é que o bandido faz pelas crianças, que nós pessoas honestas não fazemos?
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