Educação

Sonhos

Fui convidado a escrever sobre a Medicina. Mas antes que eu me atreva a opinar sobre esta arte, tomo a liberdade de escrever sobre sonhos.

Era domingo à tarde, eu estava acompanhando um plantão cirúrgico. Nossa função é realizar suturas e avaliar, junto ao médico responsável, as ocorrências que chegam da rua e a possibilidade do caso ir para o bloco cirúrgico ou ter outros encaminhamentos. Dona Rita havia caído na rua, humilhando seus 78 anos e sua irretocável maquiagem.   Era minha primeira vez, eu tremia muito segurando o porta-agulhas. Ao final, ela segurou minhas mãos e me disse: filho, você será um ótimo médico. Acho que todos que passam pela Medicina e o fazem com amor ouvirão estas palavras em algum momento. Recebendo um caqui, um vinho ou um aperto de mãos, este gesto concretiza o primeiro sonho de qualquer estudante.

O sonho citado acima é o de muitos. Muitos que merecem, outros que se deixam levar. Poucos concretizam e menos ainda o fazem com louvor. E este louvor não deve ser resultado de notas boas. Tampouco de soberba pela precisão técnica. Deve antes ser resultado de muito estudo e isso com muito amor. Deve ser resultado de querer estar perto das pessoas, de conversar e entender suas dores e sofrimentos, ainda que lhe pareçam pouco.

Escrevo isso para pedir encarecidamente que você não desista do seu sonho. É uma obviedade quando posta assim, mas que você leitor se assustaria com o número de pessoas que abandonam aquilo que sempre quiseram ou acreditaram. E eu sempre imaginei que as pessoas que desistem estão entre os piores tipos. Não as que desistem por uma necessidade, mas aqueles que param ante a dificuldades. Pois se elas desistem do que querem para sua própria vida, arriscando levar uma vida mediana, quanto mais não fariam com a vida dos outros?

Conquistar esta vaga é muito difícil. Para alguns, muito mais difícil que terminar o curso em si. Você deverá abrir mão de tudo e todos, deixar até de ser você um pouco para entrar em um curso em que você aprenderá a deixar de ser você sempre. 

A Medicina é um curso extremamente extenuante. Cansa mesmo. Por diversas vezes você pensará em desistir e se perguntar o que mesmo está fazendo ali. Outras vezes irá ser seduzido por uma Medicina comercial, cara e para pouquíssimos. Mas aí surgem as donas Ritas com seus olhares meigos e mãos trêmulas, com tanto medo quanto as nossas. E isso vai valer a pena!

Amigos, tenho muito a compartilhar com vocês desses anos de universidade. Também já me formei Engenheiro e qualquer dia desses também escreverei sobre esta outra área. Mas por algumas edições falarei sobre a Medicina e seu poder de nos drenar e ainda assim fazer com que digamos o quanto amamos isso.

Se quiserem entrar em contato comigo, meu e-mail é lesalles@gmail.com

Abraços,

Luis Eduardo Salles
graduando em medicina pela UFCSPA

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Cotas nas universidades públicas: as falácias por trás do discurso meritocrático tradicional e sobre a igualdade de direitos perante a lei


As notícias recém veiculadas no jornal Estadão no dia 17/02/2013, sob o título "62% apóiam cotas para alunos negros, pobres e de escola pública, diz IBOPE" indicam ampla aceitação às cotas e dão alguns sinais de mudanças na sociedade brasileira. Para além dos argumentos que indicam as cotas como medidas populistas, atender aos anseios da sociedade é o esperado dentro de uma sociedade democrática. Quando o governo atende aos pedidos da elite industrial e financeira, a mídia dominante no cenário brasileiro coloca que o governo está atendendo aos interesses da sociedade, mas quando os anseios e interesses dos mais pobres é atendido, isso é colocado como manipulação da massa, a qual não saberia julgar seus próprios interesses.


Tanto é verdade que é uma transformação em curso, que mesmo o Governo de São Paulo, que é governado pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) com um discurso encarado como conservador, e esse conservadorismo reflete nas tímidas políticas de inclusão das universidades estaduais paulistas, algumas das quais sequer apresentam essa alternativa, teve de responder aos anseios da maior parte da sociedade, anunciando as cotas para as estaduais, mesmo com a indisposição visível de reitores da USP e UNICAMP, e ao contrário o reitor da UNESP, Júlio Cezar Durigan, foi o grande porta voz do modelo estadual.

Com respeito à meritocracia, as opiniões mais conservadoras dizem que a decisão do STF sobre as cotas teria ferido a constituição, com respeito a idéia de que todos são iguais perante a lei. Essa leitura rasa ignora um pensamento simples sobre essa questão: tratar desiguais como iguais é reproduzir a desigualdade, como já dizia Bourdieu. A igualdade existiria se ambos tivessem condições econômicas e acesso à educação semelhantes. 


Em uma entrevista dada pelo rapper Mano Brown, ele faz uma análise metafórica que ilustra bem o perfil de pensamento conservador: "O Serra é um cara neutro, se ele tiver uma criança pobre magra e uma criança rica gordinha e ele tiver um sanduíche ele joga pro alto e faz aleluia, ele não dá para o pobre, esse é o tipo de justiça que ele faz".

Esse texto não tem por objetivo identificar exclusivamente esse partido, ou mesmo seus políticos como os culpados. Apenas utilizá-los como exemplo de um pensamento conservador que existe na sociedade brasileira e que está sendo pressionado pelas novas mudanças.


Um dos argumentos mais comuns de quem não concorda com as cotas é que primeiro deveria ser melhorado o ensino fundamental e médio. Ora, é difícil imaginar que nenhuma pessoa defenda essa idéia, seja a favor das cotas ou não.


Todos sabemos que a vontade política dos nossos governantes, sobretudo dos Estados e municípios que tem sob seu controle boa parte do ensino de base, não dão sinais de empenho para melhorar as condições do ensino, e não há sinais no curto e médio prazo de que isso aconteça. Dessa maneira, parece mais um argumento travestido de um conceito meritocrático raso e de preocupações de que essa classe popular, educada nas melhores universidades, dispute espaços com a elite. Não podemos esquecer de que mesmo que a educação nas escolas públicas melhorem de nível, temos um problema que ainda não coloca as pessoas em igualdade de competição. 


Ao passo que o jovem da periferia tem que trabalhar para ajudar em casa, tem dificuldade de acesso à bens culturais, curso de línguas, dificuldades de mobilidade urbana e mais um sem número de mazelas, o jovem da elite  vai continuar a estudar num colégio tradicional com uma educação internacionalizada, fará curso de línguas, música e terá tempo para descansar e estudar. Além da educação pública melhorar, deveriam haver bolsas permanência para que esses estudantes das classes mais baixas só estudem, e esta seria uma maneira de colocá-los em condições um pouco mais justas de competição. Em suma, a liberdade e a meritocracia não passam de uma falácia se não levarem em conta essas diferenças que muitas vezes são geracionais, ou seja, você já nasce em uma condição em que lhe é apresentado um limitado de possíveis ou não está na hora e lugar certo para aproveitar oportunidades de ascensão, e diga-se de passagem é mais farta às classes dominantes.

Outro argumento é que os alunos entram com defasagens sérias e que eles não teriam condições de acompanhar as aulas. Para desconstruir esse argumento, em primeiro lugar o sistema não deixou de ser meritocrático, premiando com uma vaga os estudantes de escola pública com melhores notas. Estatísticas preliminares do MEC sobre o Enem 2013 mostram que os alunos cotistas que foram chamados tiveram notas semelhantes aos candidatos de ampla concorrência. Além disso, várias universidades tem fornecido dados que indicam rendimento ligeiramente superior dos estudantes oriundos de escola pública. E de maneira particular, como professor de cursinhos populares, tenho acompanhado a trajetória dos estudantes nas universidade, em que grande parte deles tem tirado notas como  9, 9,5 e passado em todas as matérias, o que não é desprezível frente às origens sociais dos estudantes. Isso em geral acontece porque um estudante de classe baixa provavelmente encara essa oportunidade como única para crescer como pessoa e também como possibilidade de ascensão social social sua e também de sua família.


O programa de cotas associado à uma maior democratização de acesso via Enem e Sisu, junto a ampliação de vagas viabilizadas pelo REUNI, apesar de algumas dificuldades relacionadas à  infraestrutura, tem permitido um cenário interessante. Aumentou a mobilidade de estudantes oriundos de outros Estados, que trazem uma cultura diferente, e recursos para cidades médias e pequenas, muitas das quais foram foco da expansão do REUNI. 


Dessa maneira, além de atrair empregos diretos e indiretos, essas cidades são fomentadas pelos recursos que esses alunos investem, seja via família ou por bolsas permanência fornecidas pelo governo. Há relatos de embates culturais com moradores locais, como de ex-alunos meus que estão na Unipampa, os quais utilizaram jornal e rádio para confrontar as visões preconceituosas de moradores locais. Além disso, organizaram uma ida para doar sangue para os feridos da tragédia de Santa Maria. Esses alunos se tornam bolsistas PIBID em escolas públicas, buscando refletir academicamente sobre os problemas da escola. Não é difícil perceber que os benefícios vão no sentido econômico, cultural e social.

Um outro argumento importante que ainda permanece na opinião dos que estão recentemente convertidos à aceitação desse novo modelo e de outros que já concordavam, é de que não seria necessário criar as cotas para negros, já que eles já estariam presentes nas escolas públicas, inseridos nas condições sócio econômicas e de origem escolar e por outro lado isso geraria mais racismo. Os dados do IBGE indicam que a grande concentração das classes mais baixas no Brasil são justamente negros e pardos. Por outro lado, chama-se a atenção ao fato de que o acesso ao ensino superior não é universal, as vagas são restritas e portanto apenas os alunos de escola pública com melhor formação conseguem ingressar.


Nesse estrato social que freqüenta a escola pública, há também diferenças de renda que permitem que umas famílias tenham condições de pagar um cursinho pré-vestibular ou tenha condições de dar um ensino fundamental de qualidade, facilitando o ingresso desse aluno por meio dos vestibulinhos das escolas técnicas federais e estaduais, como o Instituto Federal, ETESP, COTUCA , colégios militares e outros colégios ligados à universidades, conhecidamente de melhor qualidade. É de se imaginar que essas pessoas estão em vantagem no estrato público e batendo as estatísticas, a maioria não é da raça negra ou parda.    Dessa maneira não podemos incorrer no erro de deslocar os argumentos equivocados da meritocracia para a esfera do ensino público, que também é desigual.
E por último, sobre a questão de que as cotas aumentam o racismo faço aqui uma inversão de pensamento.     


O racismo é uma condição predisposta latente na sociedade e ele se manifesta nos embates culturais por meio da inclusão dessa classe mais humilde nas universidades. Ao meu ver, ele se faz necessário e é inevitável para que de fato ocorra transformações na nossa sociedade. Um ex-aluno meu que faz física na UFSCAR, tendo ingressado em 2012, relatou que um colega de universidade perguntou se ele não tinha vergonha de aos 20 anos ter entrado na universidade, indicando que ele será dependente por mais tempo, e o relato dele é que ele apenas sorriu frente ao absurdo que havia ouvido. Ao mesmo tempo que sorriu, lembrava dos anos de esforço trabalhando em uma indústria metalúrgica para custear os estudos e os dois vestibulares que teve que prestar, devido à defasagem educacional e as dificuldades de tempo de estudos que teve. Essa realidade demonstra as discrepâncias de leitura e sensibilidade social, e uma vez que essas pessoas vão disputar espaços com as elites e ocupar espaços importantes, é de se imaginar as possibilidades de aprofundamento das transformações na sociedade por identidade de origem nos próximos anos. Essa parte é apenas uma hipótese, já que as pessoas estão inseridas dentro de uma lógica de consumo e melhora das vidas pessoais, mas tomando o exemplo dá própria pessoa que aqui escreve e outros tantos voluntários que tenho conhecido nos movimentos sociais de Guarulhos e outras localidades, é de se imaginar que a solidariedade esteja no horizonte dos possíveis para essas pessoas. Antes de acabar, a foto acima são de 500 estudantes de cursinhos comunitários da cidade de Guarulhos, muitos já nas universidades.


Márcio Rogério Silva
Doutorando em Sociologia Econômica e das Finanças pela UFSCAR, graduado em Engenharia pela USP e professor voluntário do Cursinho Pré-Vestibular comunitário Lima Barreto - Guarulhos


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