17/02/2013
As
notícias recém veiculadas no jornal Estadão no dia 17/02/2013, sob o título "62% apóiam cotas para
alunos negros, pobres e de escola pública, diz IBOPE" indicam ampla
aceitação às cotas e dão alguns sinais de mudanças na sociedade brasileira.
Para além dos argumentos que indicam as cotas como medidas populistas, atender
aos anseios da sociedade é o esperado dentro de uma sociedade democrática.
Quando o governo atende aos pedidos da elite industrial e financeira, a mídia
dominante no cenário brasileiro coloca que o governo está atendendo aos
interesses da sociedade, mas quando os anseios e interesses dos mais pobres é
atendido, isso é colocado como manipulação da massa, a qual não saberia julgar
seus próprios interesses.
Tanto
é verdade que é uma transformação em curso, que mesmo o Governo de São Paulo, que
é governado pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) com um discurso
encarado como conservador, e esse conservadorismo reflete nas tímidas políticas
de inclusão das universidades estaduais paulistas, algumas das quais sequer
apresentam essa alternativa, teve de responder aos anseios da maior parte da
sociedade, anunciando as cotas para as estaduais, mesmo com a indisposição
visível de reitores da USP e UNICAMP, e ao contrário o reitor da UNESP, Júlio
Cezar Durigan, foi o grande porta voz do modelo estadual.
Com
respeito à meritocracia, as opiniões mais conservadoras dizem que a decisão do
STF sobre as cotas teria ferido a constituição, com respeito a idéia de que
todos são iguais perante a lei. Essa leitura rasa ignora um pensamento simples
sobre essa questão: tratar desiguais como iguais é reproduzir a desigualdade,
como já dizia Bourdieu. A igualdade existiria se ambos tivessem condições
econômicas e acesso à educação semelhantes. Em uma entrevista dada pelo rapper
Mano Brown, ele faz uma análise metafórica que ilustra bem o perfil de
pensamento conservador: "O Serra é
um cara neutro, se ele tiver uma criança pobre magra e uma criança rica
gordinha e ele tiver um sanduíche ele joga pro alto e faz aleluia, ele não dá
para o pobre, esse é o tipo de justiça que ele faz".
Esse
texto não tem por objetivo identificar exclusivamente esse partido, ou mesmo
seus políticos como os culpados. Apenas utilizá-los como exemplo de um
pensamento conservador que existe na sociedade brasileira e que está sendo
pressionado pelas novas mudanças.
Um
dos argumentos mais comuns de quem não concorda com as cotas é que primeiro
deveria ser melhorado o ensino fundamental e médio. Ora, é difícil imaginar que
nenhuma pessoa defenda essa idéia, seja a favor das cotas ou não.
Todos
sabemos que a vontade política dos nossos governantes, sobretudo dos Estados e
municípios que tem sob seu controle boa parte do ensino de base, não dão sinais
de empenho para melhorar as condições do ensino, e não há sinais no curto e
médio prazo de que isso aconteça. Dessa maneira, parece mais um argumento
travestido de um conceito meritocrático raso e de preocupações de que essa
classe popular, educada nas melhores universidades, dispute espaços com a
elite. Não podemos esquecer de que mesmo que a educação nas escolas públicas
melhorem de nível, temos um problema que ainda não coloca as pessoas em
igualdade de competição. Ao passo que o jovem da periferia tem que trabalhar
para ajudar em casa, tem dificuldade de acesso à bens culturais, curso de
línguas, dificuldades de mobilidade urbana e mais um sem número de mazelas, o
jovem da elite vai continuar a estudar
num colégio tradicional com uma educação internacionalizada, fará curso de
línguas, música e terá tempo para descansar e estudar. Além da educação pública
melhorar, deveriam haver bolsas permanência para que esses estudantes das
classes mais baixas só estudem, e esta seria uma maneira de colocá-los em
condições um pouco mais justas de competição. Em suma, a liberdade e a meritocracia
não passam de uma falácia se não levarem em conta essas diferenças que muitas
vezes são geracionais, ou seja, você já nasce em uma condição em que lhe é
apresentado um limitado de possíveis ou não está na hora e lugar certo para
aproveitar oportunidades de ascensão, e diga-se de passagem é mais farta às
classes dominantes.
Outro
argumento é que os alunos entram com defasagens sérias e que eles não teriam
condições de acompanhar as aulas. Para desconstruir esse argumento, em primeiro
lugar o sistema não deixou de ser meritocrático, premiando com uma vaga os
estudantes de escola pública com melhores notas. Estatísticas preliminares do
MEC sobre o Enem 2013 mostram que os alunos cotistas que foram chamados tiveram
notas semelhantes aos candidatos de ampla concorrência. Além disso, várias
universidades tem fornecido dados que indicam rendimento ligeiramente superior
dos estudantes oriundos de escola pública. E de maneira particular, como
professor de cursinhos populares, tenho acompanhado a trajetória dos estudantes
nas universidade, em que grande parte deles tem tirado notas como 9, 9,5 e passado em todas as matérias, o que
não é desprezível frente às origens sociais dos estudantes. Isso em geral
acontece porque um estudante de classe baixa provavelmente encara essa
oportunidade como única para crescer como pessoa e também como possibilidade de
ascensão social social sua e também de sua família.
O
programa de cotas associado à uma maior democratização de acesso via Enem e Sisu,
junto a ampliação de vagas viabilizadas pelo REUNI, apesar de algumas
dificuldades relacionadas à
infraestrutura, tem permitido um cenário interessante. Aumentou a
mobilidade de estudantes oriundos de outros Estados, que trazem uma cultura
diferente, e recursos para cidades médias e pequenas, muitas das quais foram
foco da expansão do REUNI. Dessa maneira, além de atrair empregos diretos e
indiretos, essas cidades são fomentadas pelos recursos que esses alunos
investem, seja via família ou por bolsas permanência fornecidas pelo governo.
Há relatos de embates culturais com moradores locais, como de ex-alunos meus
que estão na Unipampa, os quais utilizaram jornal e rádio para confrontar as
visões preconceituosas de moradores locais. Além disso, organizaram uma ida
para doar sangue para os feridos da tragédia de Santa Maria. Esses alunos se
tornam bolsistas PIBID em escolas públicas, buscando refletir academicamente
sobre os problemas da escola. Não é difícil perceber que os benefícios vão no
sentido econômico, cultural e social.
Um
outro argumento importante que ainda permanece na opinião dos que estão
recentemente convertidos à aceitação desse novo modelo e de outros que já
concordavam, é de que não seria necessário criar as cotas para negros, já que
eles já estariam presentes nas escolas públicas, inseridos nas condições sócio
econômicas e de origem escolar e por outro lado isso geraria mais racismo. Os
dados do IBGE indicam que a grande concentração das classes mais baixas no
Brasil são justamente negros e pardos. Por outro lado, chama-se a atenção ao
fato de que o acesso ao ensino superior não é universal, as vagas são restritas
e portanto apenas os alunos de escola pública com melhor formação conseguem
ingressar.
Nesse
estrato social que freqüenta a escola pública, há também diferenças de renda
que permitem que umas famílias tenham condições de pagar um cursinho
pré-vestibular ou tenha condições de dar um ensino fundamental de qualidade,
facilitando o ingresso desse aluno por meio dos vestibulinhos das escolas
técnicas federais e estaduais, como o Instituto Federal, ETESP, COTUCA , colégios
militares e outros colégios ligados à universidades, conhecidamente de melhor
qualidade. É de se imaginar que essas pessoas estão em vantagem no estrato
público e batendo as estatísticas, a maioria não é da raça negra ou parda. Dessa maneira não podemos incorrer no erro de deslocar os argumentos
equivocados da meritocracia para a esfera do ensino público, que também é
desigual.
E
por último, sobre a questão de que as cotas aumentam o racismo faço aqui uma
inversão de pensamento. O racismo é uma condição predisposta latente na sociedade
e ele se manifesta nos embates culturais por meio da inclusão dessa classe mais
humilde nas universidades. Ao meu ver, ele se faz necessário e é inevitável
para que de fato ocorra transformações na nossa sociedade. Um ex-aluno meu que
faz física na UFSCAR, tendo ingressado em 2012, relatou que um colega de
universidade perguntou se ele não tinha vergonha de aos 20 anos ter entrado na
universidade, indicando que ele será dependente por mais tempo, e o relato dele
é que ele apenas sorriu frente ao absurdo que havia ouvido. Ao mesmo tempo que sorriu,
lembrava dos anos de esforço trabalhando em uma indústria metalúrgica para
custear os estudos e os dois vestibulares que teve que prestar, devido à
defasagem educacional e as dificuldades de tempo de estudos que teve. Essa
realidade demonstra as discrepâncias de leitura e sensibilidade social, e uma
vez que essas pessoas vão disputar espaços com as elites e ocupar espaços
importantes, é de se imaginar as possibilidades de aprofundamento das
transformações na sociedade por identidade de origem nos próximos anos. Essa
parte é apenas uma hipótese, já que as pessoas estão inseridas dentro de uma
lógica de consumo e melhora das vidas pessoais, mas tomando o exemplo dá
própria pessoa que aqui escreve e outros tantos voluntários que tenho conhecido
nos movimentos sociais de Guarulhos e outras localidades, é de se imaginar que
a solidariedade esteja no horizonte dos possíveis para essas pessoas. Antes de acabar, a foto acima são de 500 estudantes de cursinhos comunitários da cidade de Guarulhos, muitos já nas universidades.
Márcio
Rogério Silva
Doutorando
em Sociologia Econômica e das Finanças pela UFSCAR, graduado em Engenharia pela
USP e professor voluntário do Cursinho Pré-Vestibular comunitário Lima Barreto
- Guarulhos

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